Hyago França cobra transparência da SAF do Confiança após rebaixamento para a Série D

Por Barroso Guimarães

Em entrevista ao programa Bola em Jogo, da TV Aperipê, ex-presidente questionou investimentos, participação da associação e planejamento do clube para 2027

O ex-presidente do Confiança, Hyago França, decidiu voltar a se manifestar publicamente sobre os rumos do clube após o rebaixamento para a Série D do Campeonato Brasileiro. Em entrevista ao programa Bola em Jogo, da TV Aperipê, ele afirmou que pretendia acompanhar o time apenas como torcedor, mas mudou de postura diante da situação vivida pelo clube e passou a cobrar transparência da gestão da SAF.

Hyago disse que uma ligação recebida durante a semana foi determinante para sua decisão. Segundo ele, uma pessoa afirmou que, se seu pai, Fernando França, estivesse vivo, não permitiria que a situação atual estivesse acontecendo no Sabino Ribeiro.

“Decidi lutar. Decidi vir aqui perante a torcida do Confiança e me colocar à disposição como torcedor, como ex-presidente”, afirmou.

Para Hyago, o Confiança construiu uma história que não pode ser desconsiderada. Ele defendeu que a torcida seja informada sobre o planejamento para 2027 e afirmou que não é contrário ao modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), mas cobra explicações sobre as decisões tomadas desde a implantação do modelo.

“Não sou contra SAF. Mas já passou do momento de dizer para a torcida do Confiança o que vai ser feito para 2027”, declarou.

Participação da associação

Na avaliação do ex-presidente, existem pontos relacionados à SAF que precisam ser esclarecidos. Hyago afirmou que a torcida havia aprovado uma determinada participação da Associação Desportiva Confiança na sociedade, mas que o percentual teria sido reduzido posteriormente.

Ele também questionou a transferência de patrimônio para a SAF. Segundo Hyago, a torcida teria aprovado a administração do futebol pela SAF, mas não a transferência de bens patrimoniais do clube.

Entre os exemplos citados está uma van que, segundo ele, teria sido adquirida por meio de emenda parlamentar do então vereador Paquito, torcedor do Confiança, e posteriormente passada para a SAF.

Hyago defendeu que essas questões sejam apresentadas de forma transparente aos torcedores.

Pagamento de dívida ao ex-presidente

Outro ponto levantado pelo ex-dirigente foi a utilização de recursos da SAF para o pagamento de débitos do clube. Segundo Hyago, entre as obrigações estavam dívidas fiscais, trabalhistas, empréstimos e débitos com fornecedores.

Ele afirmou que parte dos recursos teria sido utilizada para quitar empréstimos feitos pelo então ex-presidente da Associação Desportiva Confiança.

Hyago fez questão de ressaltar que não está afirmando que os empréstimos não existiram, mas questionou a prioridade dada ao pagamento.

“Não estou dizendo se ele emprestou ou se não emprestou. Mas isso é um débito e ele recebeu”, afirmou.

O ex-presidente também declarou que outros dirigentes colocaram recursos próprios no clube durante suas gestões, mas que não receberam valores posteriormente.

“Eu não recebi nenhum real do Confiança na minha conta e nem queria receber. Como Fernando França não recebeu, Luiz Alberto, Célio, Miltinho e Daniel”, disse.

Críticas ao planejamento e ao custo do futebol

Hyago também comparou a atual folha salarial do Confiança com a estrutura financeira utilizada durante sua gestão, quando o clube conseguiu chegar à Série B.

Segundo ele, a atual folha estaria próxima de R$ 980 mil, enquanto o time que conquistou o acesso à Série B trabalhava com uma folha de aproximadamente R$ 163 mil.

O ex-presidente afirmou que a diferença estava na estratégia de montagem do elenco e na busca por parcerias e empréstimos.

Como exemplo, citou o caso do jogador Anderson, que pertencia ao Grêmio e havia passado pelo Confiança. Segundo Hyago, o atleta recebia cerca de R$ 30 mil e foi contratado pelo clube sergipano por aproximadamente metade desse valor.

Para ele, o modelo adotado naquela época priorizava soluções dentro da realidade financeira do clube.

Perda de identidade

Hyago também apontou o que considera uma perda de identidade do Confiança. Na avaliação dele, o clube e a torcida acabaram aceitando o rebaixamento sem uma reação proporcional à gravidade do momento.

“Está faltando identidade. O Confiança perdeu aquela identidade”, afirmou.

Ele lembrou que, durante sua passagem pela direção, decisões erradas também foram tomadas, mas que havia uma tentativa de reação diante dos problemas.

“Todos os dirigentes podem errar, mas a gente errava tentando. E agora a gente errou por omissão”, declarou.

Experiência nas divisões nacionais

Hyago França também destacou sua experiência nas diferentes divisões do Campeonato Brasileiro. Ele afirmou que dirigiu o Confiança na Série D, Série C e Série B e que cada competição possui características próprias.

Segundo ele, a montagem de um elenco para a Série C exige conhecimento específico do futebol nordestino e da competição.

“Você tem que conhecer o futebol nordestino. Você tem que conhecer a Série C. Você tem que ter características da Série C. E a gente conhece. As pessoas daqui conhecem”, afirmou.

O ex-presidente disse ainda que o Confiança já percorreu anteriormente o caminho entre as divisões nacionais e que o clube tem condições de repetir a trajetória.

“Eu sei muito bem esse caminho. O Confiança conhece esse caminho. Então, o gigante caiu, mas eu tenho certeza que vai levantar”, afirmou.

SAF recebeu R$ 27 milhões

Ao comentar os investimentos previstos para a SAF, Hyago demonstrou preocupação com a destinação dos recursos. Segundo ele, foram previstos R$ 27 milhões em aportes dos investidores ao longo de três anos e boa parte desse dinheiro já teria sido utilizada.

O ex-presidente questionou qual legado ficou para o clube após os investimentos realizados em 2026.

“Você zerou a dívida trabalhista? Não. Você zerou a dívida fiscal? Não. Você melhorou a estrutura do clube? Não. O que deixou de legado?”, questionou.

Hyago comparou a situação com o período em que o Confiança disputou a Série B. Segundo ele, naquela ocasião, além do desempenho esportivo, ficaram estruturas como academia, fisioterapia e melhorias no campo.

Na avaliação dele, o investimento realizado atualmente teria sido superior ao orçamento utilizado nas temporadas de 2020 e 2021, quando o Confiança disputou a Série B, mas não teria produzido um legado semelhante.

Cobrança por planejamento para 2027

O ex-presidente defendeu que a SAF se manifeste rapidamente sobre o futuro do clube. Para Hyago, a torcida não pode permanecer sem informações depois do rebaixamento.

Ele afirmou que espera um pronunciamento da direção sobre o planejamento para 2027 e sinalizou que, caso não haja respostas, pretende se juntar a conselheiros e torcedores para cobrar explicações.

“Eu estou aqui esperando, como torcedor, esse pronunciamento. E se esse pronunciamento não vier, a gente, junto com as pessoas que amam o Confiança, junto com os conselheiros, junto com a torcida, vai ter que mostrar quem ama o Confiança e brigar por esse clube”, declarou.

Hyago encerrou reafirmando que seu objetivo, segundo ele, é defender a instituição e não simplesmente fazer oposição ao modelo de SAF.

“Eu torço muito, de coração, para que o Confiança volte para a Série C, com SAF ou sem SAF”, afirmou

.Foto: Reprodução TV Aperipê